Pedacinhos de histórias: violências do nosso dia-a-dia

Para entrar no clima do post, assistam este vídeo: Micromachismos.

Este é um texto escrito por diversas mãos.

Saiu de uma conversa sobre as pequenas-grandes violências que sofremos em nosso dia-a-dia por sermos mulheres.

A ideia de expor pedacinhos de nossas histórias é que outras pessoas leiam e:

  • Primeiramente, percebam que há violências neles.
  • Sintam-seidentificadas, vejam que indignar-se é necessário.
  • Notemque algumas atitudes que costumamos enfrentar e discursos que frequentemente ouvimos, não são naturais. Devem deixar de acontecer.

Nos entristece que ainda tenhamos histórias* como estas, a seguir, pra contar. Mas nos torna fortes saber que não estamos sozinhas.

1) Sobre andar na rua.

Ser mulher em uma sociedade machista significa que até mesmo sair para andar na rua pode ser um desafio – bem desagradável. Alguns discursos delirantes dizem que nós, mulheres, temos que nos sentir “lisonjeadas” por mexerem conosco. Afinal, estamos sendo aprovadas por um bando de machos.

Não, não é assim que nos sentimos:

Não saio mais para caminhar na cidade. Mesmo com fone de ouvido e ouvindo música alta, não dá para aguentar os homens te encarando, mexendo e falando coisas do tipo ‘queria te chupar inteirinha’. Agora só vou à academia ou em parques próprios pra isso. Caminhar na rua sozinha nunca mais.” , Araraquara/SP.

A semana começou em um bloquinho de carnaval, felizmente foi um bloquinho tranquilo, e somente no final alguns homens começaram a ser inconvenientes, um deles me segurou pelo braço enquanto eu passava e o outro, quando levou um fora, me chamou de chata. Esse segundo me deixou revoltada, porque o chato e abusado no caso foi ele. NÃO É NÃO. Durante a semana eu fiquei muito tempo em casa porque tinha bastante coisa do mestrado para fazer, logo eu fui “pouco” assediada. O que é mais triste ainda, pensar que para não sermos assediadas precisamos ficar em casa, quando cheguei a esse conclusão me peguei mais uma vez revoltada e triste. De qualquer jeito, na quinta-feira fui ao shopping tomar um sorvete, e como o shopping é do lado de minha casa sempre vou vestindo o que estiver usando em casa, a não ser seja um pijama – mas confesso que já fui de blusa de pijama sim, hahaha. Enquanto descia a escada rolante tomando meu sorvete fui secada por dois amigos, aquilo me deu um nojo, e eu parei de tomar/chupar meu sorvete na hora para frear qualquer pensamento machista que eles pudessem ter. Voltei pra casa com vontade de tacar a minha casquinha no meio da cara dos dois.” ✿, Bauru/SP.

 
Elogio?

2) Sobre desvalorização e assédio no trabalho.

O assédio no trabalho é tão recorrente que existem estudos especificamente sobre este assunto, e algumas leis trabalhistas voltadas para este contexto.

É muito frequente nos depararmos com situações nas quais: desempenhamos a mesma função de um colega homem, e este ganha mais; descredibilizam nossos discursos usando justificativas distantes do trabalho como “Você está levando para o pessoal” ou “Você está louca!”. Enquanto isso, na mesma situação, com funcionários homens, há argumentações bem elaboradas.

No caso específico das universidades, o abuso contra mulheres é feito de diversas formas: desde o momento do trote (em algumas universidades, as meninas têm que desfilar, são “leiloadas” a seus veteranos, sofrem estupros), até a pós graduação, momento no qual podem ser intimidadas com ameaças de cortes de bolsas e projetos. Nem mesmo as professoras estão isentas: frente a pares homens, muitas vezes são silenciadas.

“[no espaço acadêmico] Colega homem faz exatamente a mesma coisa [que eu já fiz] = Muito bem colocado, obrigado! Eu falo cinco vezes que o experimento precisa ter isso e isso = nada. Colega homem fala uma vez que o experimento precisa ter isso e isso = Noooooossa! Bem pensado! Nunca tinha percebido!.” ஜ, São Carlos/SP.

É muito comum, na universidade, alguns professores se sentirem à vontade demais em situações nas quais não estamos dando nenhum sinal de interesse. Às vezes são coisas mais discretas, como toques nas costas, no ombro ou nas mãos. Às vezes um jeito invasivo de olhar. E em alguns momentos chegam a convites para sair, mensagens. Tenho a impressão que eles sentem que podem fazer isso porque estão em uma posição privilegiada.” ♣, Bauru/SP.

3) Sobre os assédios e invasões de espaço

Frequentemente sentimos nossos espaços invadidos. Espaços físicos.

Parece que há uma autorização para entrar no que é nosso, mas essa autorização não foi dada por nós! Foi dada por uma prática cultural ridícula na qual os homens aprendem que podem roçar em nós no metrô, no ônibus, na rua.

NÃO PODEM.

“[sobre carona para ir de uma cidade a outra] Teve uma semana que eu tava bem cansada e resolvi pegar carona ao invés de oferecer. Bom, só tinha menino oferecendo, então acabei fechando com ele mesmo – sim, é óbvio que prefiro sempre pegar carona com mulher pra não correr nenhum ‘risco’. Pois bem, no carro só tinha eu de mulher e mais três meninos de carona. No meio da viagem o menino que tava no meio do banco de trás começou a ‘abrir a perna’, tipo me apertando no canto do carro. Achei ele mega folgado e sem noção, coloquei minha bolsa entre a gente pra ele se ligar que tinham três pessoas atrás e que não rolava ser o folgado. Ok, acho que ele percebeu e a viagem seguiu de boa. Até que eu cheguei e casa e o infeliz me mandou uma mensagem inbox, mais folgado ainda, querendo sair. Aí eu fiquei me perguntando: em que momento dei essa liberdade?! Em que momento passei meu face ou qualquer outro contato?! Em nenhum!O babaca só era um machista achando que podia dar em cima de qualquer pessoa. Assim, fiquei puta!” ❦, Ribeirão Preto/SP.
Existe um público que tem autorização científica para fuçar em nosso corpo, mas não necessariamente faz isso de forma ética. Neste caso, falamos especificamente sobre os médicos, entretanto situações parecidas podem ocorrer com outros profissionais da saúde com funções similares: enfermeiros, dentistas, fisioterapeutas, etc.

Eu tenho mil histórias pra contar. Como todas nós, né. Mas a mais recente fui eu ficando encucada com a minha última ida ao ginecologista – fui num cara que não era meu gineco usual – e, assim que ele viu minha tatuagem, que fica abaixo dos seios, começou a fazer MAIS perguntas sobre minha vida sexual. “Sente dor no sexo?”; Tudo ok.”Vida sexual ativa?”; Sim. “Quanto tempo com o último parceiro?”; Respondi. “Apenas um?” Er… sim. “Sexo anal?” Er… já fiz. “Gosta?” ??? Isso tudo enquanto enfiava um espéculo em mim e fazia o papanicolau. Eu fiquei na dúvida se ele apenas estava perguntando mais porque tinha um estilo diferente do meu anterior, ou se era só porque era a primeira consulta, ou se era tudo coisa da minha cabeça porque a tatuagem é recente e não tinha ainda encarado mostrar ela pra médico… Mas é aquela coisa. Um exame invasivo, perguntas invasivas e a gente é posta como louca se acha o cara invasivo, afinal mulher tem de se acostumar a abrir as pernas desde a adolescência por saúde pra esses caras misóginos nos examinarem… Bom, nunca mais volto nesse aí.” ★, Salvador/BA.

4) Sobre a pressão social para cumprir determinados papéis.

Ainda hoje existe uma espécie de fantasma que ronda nossas vidas dizendo baixinho ao pé do ouvido “seu lugar é em casa!” ou “você precisa ter filhos, casar, passar, lavar, cozinhar e sorrir”. E o pior de tudo é que esse fantasma fica escondidinho. Nós o ouvimos numa frase aqui, em outra ali.

Mas o pior foi hoje….no feriado. Meus pais moram em um condomínio onde tem muitas crianças e adolescentes que ficam brincando na rua. Então eu escutei a minha mãe contar que o porteiro estava falando – vai vendo – de duas meninas que ficavam andando com alguns meninos. Ela pensava que todos eram amigos, mas o porteiro disse que os meninos “fizeram a festa” com as duas. E que a mãe de uma delas ligava na portaria cinco horas da manhã perguntando se ele sabia onde estava a filha dela, e que ele respondia “a sua eu não sei, mas a minha tá em casa”.Como se mulher fosse bicho pra prender em casa!!!!!!! E ele ainda completou afirmando que já já uma delas aparece grávida, porque fica entrando nas obras com os meninos. Foi de doer o coração, os ouvidos e tudo! Eu só falei pra minha mãe “mas dos meninos ninguém fala né?” , São Carlos/SP.

“[a experiência mais marcante] foi terminar um relacionamento de quase 3 anos porque a família do meu ex dizia que mulher não tem que estudar, tem é que casar…e eu tinha entrado na faculdade.” ۞, Bauru/SP.

5) Sobre ser lésbica. 

A violência contra a mulher tem inúmeras facetas: e uma delas tem a ver com o ser lésbica.

Certa invisibilidade parece rondar o universo lésbico, uma invisibilidade nociva.

Uma vez eu e minha namorada fomos a um restaurante japonês e pedimos um rodízio da promoção para casal. Na hora de pagar a conta, o garçom disse que o dono do estabelecimento não aceitava casais homossexuais como casal. Reivindicamos nossos direitos e eles disseram aceitar pelo fato do dono não estar presente e para não haver nenhum tipo de transtorno. Nunca mais voltamos ao local“. ✪, Ribeirão Preto/SP.

Existe um ponto especificamente difícil: a crença de que o casal lésbico existe com a função de servir de fantasia sexual para o homem.

Homem: você realmente acha que o mundo gira em torno do seu umbiguinho, né, bem?

Então, não.

“[o que acontece sempre de dizerem] Você é muito bonita pra ser lésbica. E sempre perguntam do a três. É foda. É o tempo todo. Se eu falar o que aconteceu comigo semana passada vocês não vão acreditar também. Esse foi inédito e eu achei um dos mais agressivos: um menino, supostamente meu amigo, me falou que não consegue entender como alguém gosta do mesmo sexo porque o cérebro não gosta do igual. O cérebro gosta da novidade, da curiosidade. Ele quis me explicar com ciência que era impossível. Tipo, qual o problema dessas pessoas? Ele falou que duas mulheres juntas já conhecem todo o corpo da outra e não tem graça. Não é novo, não há descobertas. E ainda falou que mesmo que usássemos brinquedinhos ia ser algo q não é natural e o corpo só gosta do que é natural. Você acredita que eu sou obrigada a ouvir isso?” ✺, Bauru/SP.

“[acontece sempre]de mandarem a gente beijar para provar que somos namoradas também. Sempre falam pra gente se beijar econtinuam dando em cima mesmo sabendo que namoramos. Não respeitam.” ▩, Ribeirão Preto/SP.

O que queremos sinalizar é que estamos esgotadas, e permanecemos unidas para desconstruir tudo isso. Exigimos respeito e igualdade, não aceitamos mais essas violências. Embora as tentativas de nos silenciar sejam bastante agressivas, estamos firmes!

Encerrando a conversa e representando muito bem como nos sentimos:

Andar na rua é foda. De repente você fica surda. Você não ouve mais quando um amigo passa por você e buzina, ou quando um carro quer chamar a sua atenção para um perigo, porque buzina é quase sempre uma agressão e você não quer mais ouvir agressões. Você machuca seus tímpanos com música altíssima nos fones, e não adianta porque os olhares são suficientes para intimidar. Você deixa de sorrir, porque sorrir ~incita~ agressões que a deixam para baixo. Mas descobre que não sorrir também. Você deixa de sair de casa porque “está tarde”, mas é sempre tarde para quem é mulher. Você passa calor porque roupa curta é ~justificativa~ de agressão. Descobre que roupas ~comportadas~ também são, porque independe da roupa o problema é o genêro. Você deixa de ouvir, deixa de vestir, deixa de caminhar, deixa de existir. Você só não é deixada em paz.” , Manaus/AM.

*Usamos símbolos no lugar de nossos nomes nos relatos, porque temos medo. Sabe qual a razão de termos medo? Nossos agressores não são como o bicho papão ou o homem do saco – distantes e invisíveis. Eles estão próximos.

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